segunda-feira, 4 de outubro de 2010

It's chaos.

Tendo eu vivido em um show de horrores - um desfile de luxúria atrás de outro, com palhaços e bailarinas que ao luar se tornam esqueletos destruídos pelo tempo - me fez perceber como estar fora dele, mesmo que como espectador, faz os ares daqui se tornarem menos hostis. Aquele velho costume de manter a aparência... Talvez eu ainda tenha. Para os pequenos palhaços do show que se acostumaram com minha incrível capacidade de hipnotizar seres humanos, ratos e até mesmo algumas (várias) vacas e galinhas. O show começou como qualquer show começa, o típico apresentador roliço aparece e faz seu teatro inconfundível. Quando a cortina se abre... Ah, as luzes, os aplausos... São todos feitos de uma magnífica técnica que aprendi com um velho senhor, na verdade... Não é um senhor, mas ele se comporta como tal. Seu nome é Dr. Ventrículo, mas todos o chamam de Coração, ele nasceu com tal nome. Enfim, ele me ensinou tudo o que sei hoje sobre hipnotismo, manipulação, controle e também auto-controle, porque não? Demorei alguns anos para conseguir aprender algo que realmente vale-se a pena.

Primeira lição: Esqueça seus sentimentos, mas deixe os mais sujos. Eles ajudam.
Essa lição foi a primeira, a mais básica. Ela me ajudou a sobreviver tantas e tantas vezes que é difícil largar o hábito de carregá-la comigo depois de tanto tempo.
Segunda lição: Pareça frio, mesmo se não estiver realmente se sentindo assim.
Dr. Vetrículo me disse uma vez: "Pessoas não querem saber se você vai bem ou vai mal. Agora, se você às iludir com a possibilidade de se apaixonarem por uma pessoa que não se importará.. Ah, meu rapaz, o mundo será seu!" Mais uma vez correto.
Terceira lição: Se desafie.
Não existiu nenhuma grande pessoa que não se desafiasse às vezes. Malabares com facas e tochas? Coisa de criança...
Quarta lição: NUNCA, mas NUNCA demonstre sentimentos reais.
Dr. Ventrículo vivia me dizendo que no dia em que eu demonstrasse qualquer sentimento... Eu poderia perder tudo o que este circo dos horrores tinha à me oferecer, de bom e de ruim e que eu não deveria perder esta chance. Mas o destino é o que existe de mais cruel para os homens, não?
Quinta lição: Não faça muita sujeira no local e limpe bem seus dentes.
Acho que essa é mais importante.

First shot.
Minha língua era desconhecida antes naquele meio, mas todos falavam todas as línguas. Me sinto ainda extremamente surpreso por tal fato. Pessoas de todos os lugares se reuniam ali, naquele meio tão sujo e fascinante, mas mesmo assim nenhum deles me entendia. O resultado foi que aprendi rapidamente um pouco de cada língua, me aprofundando nas mais interessantes, claro. Minha curiosidade me levava sempre ao local onde Dr. Ventrículo residia, visitas ao velho todas as tardes eram costumeiras. Chá, silêncio e mesmo naquele olhar de jovem cansado era possível enxergar a história daquele ser tão maltratado. Ele nunca se referiu a sua vida antes do circo com grande pesar, sempre me falava coisas horrendas e extremamente dolorosas, sobre tortura, sobre medo e destruição. Um garoto se interessa por tais coisa, não é?
Dr. Ventrículo depois de pouco tempo passou a me ensinar, me dava lições à serem cumpridas, como se estivesse ensinando à si mesmo só que mais novo. Passando sua sabedoria adiante. Nunca reclamei, a recompensa vinha em carinho alheio e alguns doces que duravam alguns minutos, mas tinham logo seu gosto satisfatório escasso em minha língua. O que só me fazia querer aprender mais para ganhar mais doces, mais paparicos inúteis que só serviam para me fazer desejar mais e mais, não importa de quem, como ou onde. Era só no que eu pensava durante anos.
Depois de alguns anos eu já conseguia me virar bem sem o Doutor, ele havia me ensinado bem e eu não conseguia sentir ao menos cócegas ao ouvir um "eu te amo". Era clichê, era rotina. Só rotina. Durante os shows, era de costume sempre escolher alguma bela moça da platéia e testá-la. Sim, se ela seria fácil ou difícil. Era só diversão de garoto. Se fosse muito difícil... Bem, sempre existiria uma fila para substuí-la, pra quê me preocupar? Eu ria, me divertia sozinho. Eu era do circo dos horrores, não? O que era comer um coração ou dois no café da manhã?

You are the target, asshole.
Começa às 7 horas e termina por volta das 9. O show era curto, mas deixava todos impressionados. Palhaços fantasma, os malabares flamejantes e às vezes que mordiam, as bailarinas grotescas, o apresentador gorducho com seus animais deformados (e que pareciam ter desejo de carne... Humana, de preferência. Por favor.) e por fim o hipnotizador que fazia homens ricos e mulheres finas imitarem aves, porcos e às vezes fazê-los revelar seus mais terríveis segredos à uma platéia sempre atenta. Em uma certa noite, paramos em uma cidade qualquer, abandonada por Deus ou o que quer que você acredite. Não existiam muitas casas com luz e a água encanada era um privilégio de poucos.
Armamos nosso teatro ao ar livre, era uma noite clara, porém algumas nuvens se aproximavam ao longe. Demorariam para chegar, talvez só no final dele. Aguardamos o público chegar, encheram o teatro com olhares curiosos para todos os lados, mal sabendo para onde direcionar estes. Permaneci durante todo o espetaculo atrás do toldo, mas eu já sabia qual seria minha "vítima" da noite. A vi entrando no teatro, porém não consegui retirar meus olhos dela. Ela tinha cabelos negros que lhe vinham até os ombros, um belo vestido vermelho envolvia o corpo bem delineado, cheio de curvas... Tinha que ser aquela. O show correu como esperado, impressionei a todos como sempre fazia, nada muito diferente. Assim que as cortinas se fecharam, corri para o lado de fora e passei a procurar desesperadamente pela moça do vestido vermelho. Pude ver seu corpo indo em direção aos fundos do teatro improvisado, fiquei confuso, porém não me questionei mentalmente. Somente corri em sua direção, tentando alcançá-la, porém quando alcancei o ponto em que ela estava anteriormente ela sumiu de minha vista. Olhei envolta de meu corpo e continuei a não poder visualizá-la. Por fim, desisti de minha procura, ela havia ido. Soltei um suspiro cansado, meus braços doíam. Alias, minhas veias doíam. Enquanto pensava em como aliviaria aquela dor, senti uma mão pousar sobre meu ombro, virando meu corpo vagarosamente para trás. Foi quando pude ver a bela moça novamente, em seu vestido vermelho. Ela sorriu gentilmente, mostrando seus lábios também vermelhos, extremamente... Convidativos.
Por um momento pensei que ela fosse uma miragem, alguma criação de minha mente. Nunca havia antes vislumbrado uma humana como aquela, era um pecado a ser saboreado. Novamente ela sorriu com o sorriso guloso que havia surgido em meu rosto. Ela colocou ambas as mãos em meus ombros, me empurrando para trás, encostando meu corpo em um tapume velho que estava encostado ali. Virou-se de costas para mim, encostando delicadamente seu corpo sobre o meu, fazendo questão de espremer meu quadril com o seu. Foi aí que vi seu ombro nu ao meu alcance, passei minha língua por meus lábios, umedecendo-os, abri estes pronto para abocanhar aquela carne deliciosa, mas subitamente ela separou seu corpo do meu e se virou de frente para mim novamente. Aproximou seu rosto do meu e beijou-me de forma desejosa, mordendo-me os lábios como se saboreasse o gosto destes. Rapidamente ela soltou meus lábios e voltou sua atenção para meu pescoço, despejou uma sequência de beijos molhados por ele enquanto arrancava os botões de minha camisa com um movimento rápido. Passou a distribuir mordidas sobre meu peito, mordidas cada vez mais fortes, cada vez mais doloridas e carregadas de gotas de meu sangue. Para algumas pessoas aquilo seria extremamente doloroso, porém naquelas mordidas estava contido um prazer o qual eu nunca havia experimentado.Tanto que não pude contê-lo, liberando-o no ar em forma de lamentos altos que poderiam ser ouvidos ao longe. Ela levantou sua cabeça, os lábios e parte do queixo cobertos por sangue, meu sangue, e me olhou um tanto confusa com minha reação. Com um gesto rápido, tomei seus lábios novamente com os meus, mordi a parte inferior de seus lábios arrancando jatos de seu sangue e o tomei. Delicioso, como havia imaginado. Ela mal conseguia conseguia controlar seu prazer ao me ter ali, arrancando o seu líquido precioso e passou a arranhar meu corpo, deixando marcas avermelhadas por todo meu dorso. Nos deleitávamos com aquele simples prazer, dar e receber. Foi a primeira vez. Primeira noite em que nenhum coração foi arrancado e destruído por dentes ferozes, mas no futuro não sei quantos serão necessários para manter dois. Podem existir dois agora, no futuro três... Talvez mais sangue do que o imaginado tenha que ser derramado, ainda bem.

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