Passar alguns dias naquele lugar não era de todo ruim, havia a bebida o suficiente. A noite era uma coisa incrível, fogos de artifício durante festivais, pessoas mascaradas e fantasias, como mandava o figurino. Eu caminhava entre as pessoas, forçava um sorriso ou outro entre as damas da multidão, mas nenhuma delas realmente me atraía. De repente, eu havia me tornado um prêmio entre elas, em um grande complô que só elas sabiam. Eu não valia grande coisa, não tinha posses, não tinha um nome... Eram pequenos jogos que elas faziam para se sentirem mais vivas, no carnaval elas se divertiam com pequenos atos de libertinagem e outros um tanto perigosos.
Me decidi por me encostar em uma parede de pedra de um prédio próximo, acendi um pequeno cigarro e traguei a fumaça, prendendo-a entre meus lábios. Fiquei a observar a multidão como observava minhas estrelas, mas aquelas pessoas não continham o mesmo brilho das minhas amadas estrelas. Eram pessoas sujas, com pensamentos imundos, que viviam em covas como chacais esperando por sua próxima vítima. O mundo era assim, eu havia aprendido da pior forma. Me livrei da fumaça no ar, como me livrava daqueles pensamentos, ao voltar meu olhar novamente para multidão pude vislumbrar a visão de um anjo - ou fora assim que eu pensei que fosse. Os cabelos negros dançavam junto com a brisa que passava por seu corpo, fazendo o tecido de seu vestido balançar. O tecido era extremamente branco e me hipnotizou por longos minutos, me fazendo suspirar quando ela virava seu pequeno corpo de um lado para o outro, como uma criança admirando o movimento de seu vestido contra o vento. Ela tinha asas em suas costas, com longas penas que passavam sua cabeça, dando mais charme à cada um de seus sorrisos; que ela mandava à todos os passantes, deixando-os tão entorpecidos quanto à mim. Aquele anjo aqueceu meu coração por sua simples presença, meu coração que estava frio e endurecido antes.
Ela se voltou em minha direção, ao notar que eu a observava, ela se virou com um sorriso mais travesso e correu para longe. Em um impulso sai em disparada atrás dela por entre as pessoas, os becos e vielas até encontrá-la parada ao final de uma rua sem saída. Encostou-se no muro de pedra, sem se importa com a aparência molhada desta. Me olhou com olhos tristes enquanto eu me aproximava, ofegante pela corrida que havia feito poucos momentos antes. Um sorriso dançava em seu rosto que me fez ter uma sensação engraçada no estômago, que eu logo ignorei, pois havia algo mais importante ali. Parei educadamente a sua frente mesmo que sentisse meu instinto me empurrando para frente, com um aceno de cabeça ela me mandou chegar mais perto. Nossos olhares se cruzaram e sem muita cerimônia selei nossos lábios em um beijo terno e rápido, pois ela não me permitira mais que isso. Abaixou seu rosto, mas logo o levantou e me olhou novamente, agora com outros olhos. Não tristes, mas brilhantes e serenos, senti meu corpo se aquecer apesar daquela ser a noite mais fria que eu já havia presenciado em Verona. Eu me perdi naqueles olhos castanhos e agora tão vivos. Em um movimento rápido, uma de suas mãos pousou em meu peito e empurrou de forma leve meu corpo para trás, ela escorregou por debaixo de meus braços e correu. No momento em que eu iria tomar um impulso para segui-la, ela se virou e me fez um sinal para parar e naquele mesmo instante meu corpo se paralisou. Senti algumas gotas vindas do céu caírem sobre meu rosto, porém as ignorei, mantive meu olhar fixo em seu rosto, naquela pele alva.
- Qual o seu nome? - Gritei, desesperado por uma resposta. Ela sorriu mais radiante que antes, levantou seu indicador no ar, balançando-o negativamente e saiu correndo pela noite novamente. Me deixando com as gotas pesadas de chuva que caíam agora em todo meu corpo.
Não pude evitar sorrir ao lembrar de meu anjo nos dias seguintes, nos carnavais seguintes, nos anos seguintes. Naquela noite meu coração havia partido com aquelas asas brancas e aquele olhar sereno.

História linda mas pff, que anjo mais bobo. Ela não devia fugir dele. Preciso mudar isso, hm.
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