
O que dizer do pobre do palhaço que se esqueceu até de suas próprias necessidades, as subjugando e ignorando algumas vezes, pois a única utilidade que achou para sua miserável existência foi fazer as gargalhadas saírem da boca de outros? O público amado que o idolatra por ser o mestre do riso e de enganosa felicidade. A felicidade que ele traz a outros indivíduos, não sendo necessária a sua própria. A tal risada, a tal enganosa felicidade que é palpável tal sua inutilidade. O palhaço valoriza a alegria que traz, não a que carrega na bagagem. Sempre ser o alvo das risadas não lhe incomoda, são somente mais fãs. Ele cresceu assim, privando-se de ódio e tristeza para que seu vazio fosse preenchido pela risada alheia. Seu mantra é a risada do homem gorducho da primeira fileira, seu alimento é a gargalhada da garotinha da arquibancada do alto, perto do mastro que segura a tenda colorida do velho e bom circo. A matilha de lobos que são seus sentimentos escondidos debaixo da maquiagem multicolorida, como se aquela lágrima teatralmente pintada camuflasse a verdadeira. O pobre palhaço fora ensinado a não se sentir sozinho. Oras, se haviam tantos como ele, pra que se sentir sozinho? Era o que sempre lhe vinha a mente, o que lhe fora previamente destinado. Sonhar com a bela moça do trapézio era só... um sonho. Um bom sonho que ele mantinha. Era como se ela representasse todas aquelas emoções que ele não podia sentir. Dor, rancor, ódio, cobiça... Não era do feitio de um pobre palhaço sentir mais do que alegria, a velha alegria triste e dolorosa de estar condenado a ser feliz.
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